Não dá mais tempo:Quando tudo ficou mais fácil… e a vida mais apressada
Houve um tempo em que o auge da tecnologia cabia em uma sala com máquinas barulhentas e disciplina militar. Chamava-se datilografia.
Na minha juventude, esse era o curso do futuro. Dona Estela — uma senhora de 36 anos com alma e aparência de 56 — comandava a sala como uma maestrina. O som das teclas batendo, misturado ao estalo metálico das máquinas Olivetti, era quase uma sinfonia industrial. A gente acreditava: quem dominasse aquilo dominaria o mundo.
Então chegaram as máquinas elétricas. Pronto, pensamos: agora vai. Um clique e tudo resolvido.
Não foi bem assim.
Nunca terminei o curso. Fiquei eternamente na lição um: “asdfg”. Talvez ali já estivesse um sinal do futuro — a gente começa muita coisa… e a vida acelera antes de terminar.
Fotografia também era um sonho. Nosso mundo passava pelas páginas de revistas como Manchete, Cláudia e, mais tarde, Caras. Mas havia também a ousadia criativa de Ziraldo com sua Bundas, uma espécie de provocação cultural. Como ele dizia, com ironia fina: “Quem mostra caras na bunda não mostra bundas na cara”.
E, em algum lugar entre uma banca e outra, ecoava Caetano Veloso: “O sol nas bancas de revista me enche de tanta preguiça…”
Talvez não fosse exatamente sobre a minha geração, mas a sensação já estava lá.
Quis fazer fotografia. Não fiz. Faltava dinheiro — detalhe importante. Restava a câmera descartável da Kodak, nossa tecnologia possível. Simples, limitada, mas cheia de expectativa.
Aprender violão? Essencial — não pelo instrumento, mas pelas possibilidades sociais. Era quase um passaporte para amizade, rodas e paqueras. Cheguei a tentar aulas na igreja. Havia uma condição: compromisso com o celibato.
Não deu. Meu talento não era tão grande assim.
Avançamos algumas décadas.
Hoje, pensei em voltar à datilografia. Não preciso mais. Eu falo — e o texto aparece.
Pensei em estudar fotografia. Não preciso mais. Qualquer criança com um celular faz imagens que fariam Sebastião Salgado levantar a sobrancelha.
Violão? As igrejas agora imploram por alunos — e, felizmente, sem cláusulas espirituais tão rígidas.
E então vem o pensamento inevitável:
Não dá mais tempo!!!Mas talvez essa frase esteja errada.
Talvez nunca tenha sido sobre “dar tempo” para aprender tudo aquilo. Talvez seja, agora, sobre algo muito mais raro: dar tempo para nós mesmos.
Porque, no fim das contas, conquistamos o clique, a velocidade, a facilidade. Mas seguimos adiando o essencial.
A tecnologia resolveu quase tudo.
Menos a pressa que a gente carrega por dentro.
E talvez seja justamente aí que ainda exista tempo.
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